| ||
O amor é rapadura, por Fábio de Lima | ||
|
Eles se conheceram num baile para a melhor idade. Ela com 61 anos e ele com 63. Ambos viúvos e em busca de uma companhia. A vida não havia sido fácil para nenhum dos dois. Dona Regina deixara a Bahia com 16 anos. Dos anos 60 para cá sempre trabalhou muito. Como saiu analfabeta, do nordeste, e nunca estudou depois de chegar em São Paulo, achou na profissão de doméstica a melhor forma de ganhar seu sustento. Casou cedo, com 19 anos. Ficou viúva, também cedo, com 25 anos. Não quis casar de novo e criou, sozinha, um casal de filhos. Só que no dia 04 de julho de 1994, segundo marca o verso de uma foto 3x4, a vida desses dois brasileiros – iguais a tantos outros brasileiros – deu uma reviravolta. Aquele senhor alto, magro, de bigode aparado e branco – assim como seu cabelo – trombou com aquela senhora, também magra, de cabelos compridos e vestido florido. Eles estavam num baile para a melhor idade, no extremo da Zona Sul de São Paulo, e escutavam uma música, do Zezé Di Camargo e Luciano, chamada “É o amor”. Dançaram juntos. Deram risadas. Tomaram ponche. Falaram sobre a vida e sobre os filhos. Concordaram estarem cansados e sozinhos. Comentaram as saudades dos tempos que eram jovens. Beijaram-se. Foram embora juntos. Namoraram e casaram na igreja. Viveram juntos e felizes nos últimos 12 anos. Dançaram em muitos outros bailes. Fizeram juras eternas de amor. Era 30 de julho de 2006. Um domingo. Noite fria. O relógio da Avenida Ricardo Jafet, Zona Sul de São Paulo, marcava 23h17. Avistei um carro batido em um poste e muito sangue e vidro pelo chão. Perguntei ao vigia de um posto de gasolina, de frente ao local do acidente, o que, exatamente, havia ocorrido. E ele me disse que dois velhos haviam morrido na batida. Só isso, segundo o vigia. Então, olhei, atentamente, aquele carro batido. Havia uma foto 3x4, de um casal de idosos, intacta, colada no volante do carro. Olhei novamente para o rosto do vigia que mascava chiclete e com a mão direita coçava a bunda. Pensei que o mundo é muito mais cruel que aparenta. Pensei também que aquele que tem a pessoa amada ao lado tem sorte. Nunca entendi a vida, nem a morte! O amor é doce, mas não é mole não. (*) Jornalista e escritor ou “contador de histórias”, como prefere ser chamado. Atua como repórter freelancer para o jornal Diário do Comércio (SP) e é diretor de programação da Cinetvnet (TV pela WEB). Está escrevendo seu primeiro romance, DOCE DESESPERO. | ||









Leia este blog no
seu celular